segunda-feira, setembro 16

Análise – O Silmarillion

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Analisar livros não é algo que será muito comum aqui no Pixel Nerd. Mas abrirei algumas excessões, principalmente para livros de Tolkien, começando por O Silmarillion.

Eu, como um escritor, tenho grande fascínio pelas obras do professor. Elas não só moldaram a fantasia moderna como servem de base para toda geração posterior de escritores. Histórias de magos e dragões, RPGs de mesa como D&D, RPGs eletrônicos como The Witcher e Skyrim, desenhos como Caverna do Dragão, tudo isso tem traços da literatura “Tolkeniana”.

Para mim, é fascinante ler sobre suas histórias, e me servem de muita inspiração para minha própria, afinal estou escrevendo livros. No meu caso, abordarei desde a criação de um mundo, assim como ele fez, mas irei até um futuro distante dessa criação. Algo que pode lembrar vagamente Final Fantasy XV e Naruto. É notável (e falo isso com muito orgulho e satisfação) que eu, assim como o professor, também desenvolvi um idioma único e com regras próprias. Um dia falarei mais desse meu projeto.

Com toda essa carga e ambição, resolvi aprender um pouco a respeito de Tolkien, e ler suas obras. Então já estou montando minha coleção pessoal do professor, e irei analisar obra por obra do mesmo. Meu conhecimento sobre Tolkien, até então, se restringia apenas aos filmes.

Enfim, escolhi ler por ordem cronológica dos acontecimentos, então farei as análises da mesma forma, começando pelo primeiro livro, que terminei recentemente, O Silmarillion, traduzido pela HapperCollins Brasil.

Sinopse

“O Silmarillion” é um relato dos Dias Antigos da Primeira Era do mundo criado por J.R.R. Tolkien. É a história longínqua para a qual os personagens de “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit” olham para trás, e em cujos eventos alguns deles, como Elrond e Galadriel, tomaram parte. Os contos de “O Silmarillion” se passam em uma época em que Morgoth, o Primeiro Senhor Sombrio, habitava a Terra-média, e os Altos-Elfos guerreavam contra ele pela recuperação das Silmarils, as joias que continham a pura luz de Valinor.
O livro começa com “O Ainulindalë”, o mito da criação do Universo, seguido pelo “Valaquenta”, onde estão descritas a natureza e os poderes de cada um dos deuses. O “Akallâbeth” narra o apogeu e a queda do reino da grande ilha de Númenor no final da Segunda Era e “Dos Anéis de Poder” fala dos grandes eventos no final da Terceira Era, como narrado em “O Senhor dos Anéis”.

O Silmarillion: o começo de tudo

Tolkien se inspirou fortemente nas mitologias nórdica e grega para escrever seu “legendarium”, como é conhecido O Silmarillion. Muitos elementos dos primeiros capítulos nos lembram bastante as histórias contidas nesses clássicos humanos.

Portanto, é de se esperar histórias muito lúdicas, ainda mais no primeiro capítulo, nomeado Ainulindalë. Nele somos apresentados a Eru Ilúvatar, Deus único, Aquele que é.

Contudo, eu não gosto muito da ideia de um deus único. De certa forma isso não impactou em nada meu gosto pela obra, afinal Tolkien quase não utilizou Eru Ilúvatar na história. Ele mais age como um observador passivo, assim como o leitor, atuando em apenas uma ou outra questão durante O Silmarillion.

Porém, de certa forma Eru ainda impactava diretamente os acontecimentos em Arda, o nome do planeta das histórias de Tolkien. Para tal, ele criou anjos, chamados Ainur, também conhecido como Poderes de Arda. Esses sim foram muito impactantes nos desenrolar de boa parte do livro, principalmente no início e no final.

História de elfos

Todavia, o que mais me apetece nessas histórias não está no sagrado, no grande ou no oculto. Mas sim no trivial. Esse que para nós, meros humanos mortais, é fascinante. Afinal, as histórias tratam de elfos que, diferentemente do que muitos imaginam, provavelmente não possuíam orelhas pontudas, algo que se restringe mais ao visual das adaptações cinematográficas de Peter Jackson.

O nome “elfos” é apenas uma má escolha de Tolkien, de acordo com ele mesmo. Os elfos de Tolkien são como humanos, porém com faculdades estéticas e físicas aprimoradas. Ou seja, são muito mais belos, nobres e são imortais.

Em suma O Silmarillion passeia por todo continente da Terra-média, bem como o continente de Aman, que fica ao Oeste da primeira, onde vivem os Valar (anjos, também chamados de Ainur).

É simplesmente sensacional ler como as histórias se desenrolam, de maneira fluída, ainda mais para uma obra escrita no século passado, afinal a maioria delas não possuem o mesmo tom de narrativa que se encontra nas obras modernas.

Contudo O Silmarillion nos mostra como uma boa história deve ser contada. É uma obra nada clichê, afinal foi a partir dela que muitos dos cliches de hoje surgiram.

Tolkien desenvolve toda uma gama, uma árvore genealógica de personagens, os quais destrincha e cria o ambiente para as maravilhosas histórias de Arda. Desde grandes nobres se rebelando aos Valar, até uma pobre garota que foge de sua morada, e enquanto viaja pelas florestas conhece um homem, elfo cinzento, que a enfeitiça, e a torna sua esposa.

Humanos são importantes, mas secundários

Embora todos os leitores, espero eu, sejam humanos, Tolkien decidiu escrever sobre elfos. Mas nesse cenário ainda temos espaço. Muitas das principais histórias ainda tem humanos as protagonizando, senão meio-elfos.

Entre os humanos de grande destaque temos Beren, Tuor e Túrin Turambar. Mas nenhum deles me cativou tanto quanto o meio-elfo Elrond. Esse último que para mim foi tão marcante quanto os elfos Feänor e Melkor.

É interessante ver como Tolkien trata a morte em sua história. Aqui, a morte é na verdade um presente de Eru Ilúvatar. Algo que os elfos almejam mas não tem. Os homens, quando se vêem cansados desse mundo, podem partir. Mas os elfos tem de morar em Arda até o fim dos tempos. É algo muito belo e filosófico.

A beleza do mundo de Tolkien

Embora alguns cenários sejam mórbidos e horríveis, é incontestável a propensão de Tolkien em descrever as coisas belas. Desde barcos de cor branca e velas douras, em formatos de cisnes, até o brilhos dos cabelos das elfas e a beleza singela e singular de cada uma delas.

Desse modo eu fui cativado por suas descrições. Eu que não gosto de cenários escuros e sujos, muito comuns na cultura pop atual, como em Dark Souls ou filmes de terror. Tolkien descreve a beleza como sinônimo de nobreza e imortalidade, algo que embora agora faça todo sentido eu nunca vi em outra obra.

A complexidade de O Silmarillion

Conforme já dito anteriormente, Tolkien desenvolve árvores genealógicas inteiras, mas não se restringe apenas a isso. Mais de uma língua artificial complexa está presente nas suas obras, desde a escrita até as pronúncias. Além disso o tempo descrito ao longo de O Silmarillion age de forma linear, levando em conta a imortalidade élfica ao mesmo passo que a mortalidade humana.

É claro que o desenvolvimento não é perfeito, e alguns pontos tem buracos abertos. Mas isso é desconsiderado a partir do momento que lemos logo nas primeiras páginas o texto de Christopher Tolkien, filho do professor. Lá, Christopher explica que seu pai não terminou de escrever O Silmarillion, e este foi organizado a partir de diferentes versões de seus muitos contos, utilizando as versões mais coesas, e publicado como um compilado postumamente. Em outras palavras O Silmarillion nem sequer é um livro concluído por Tolkien, sendo apenas um arranjo das diversas versões de seus contos legendários, de uma forma que consigam ter algum sentido. Inclusive, é acreditado que Christopher também precisou preencher lacunas da história em alguns pontos, mas isso nunca foi confirmado.

Um legado para fantasia moderna

Com suas histórias, agora não se tratando apenas de O Silmarillion, Tolkien inovou a o gênero. Sua escrita marcante e detalhista, seu mundo coeso e fantástico, e as diversas raças criadas pelo professor hoje fazem parte de diversas histórias. Menores em suas proporções, mas que ainda carregam a identidade básica do mundo que um dia Tolkien imaginou.

É claro que ele não inventou a fantasia, e ela já existia antes dele, bem como em histórias contemporâneas às suas, como Conan, o bárbaro. Contudo Tolkien foi de ampla importância para o desenvolvimento do gênero fantasia, sendo considerado por muitos o pai da fantasia moderna.

10.0 Obra-prima

Sendo uma obra quase que obrigatória para os fãs do gênero de fantasia medieval, O Silmarillion demonstra toda a capacidade de Tolkien em construir seu mundo fantástico, e nos apresentar a cada detalhe desse mundo, onde diversos personagens diferentes protagonizam seus contos mitológicos e narrativas. Pelo legado, e por toda contribuição para o gênero, O Silmarillion, bem como O Senhor dos Anéis, é sem dúvida uma obra-prima.

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Sobre o autor

Jean Virginio Rocha, 22 anos, formado em design gráfico, trabalhando como programador front-end. São Paulo - SP. Como um amante da cultura pop e principalmente de animes, resolvi criar o Pixel Nerd para expôr minhas opiniões e comentar as atualidades desse maravilhoso universo. Myanimelist: https://myanimelist.net/animelist/Kamizero

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